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CONHEÇA-TE A TI MESMO

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Há alguns anos conversei com a filha de uma amiga minha, uma pré-adolescente muito falante e muito querida também. A menininha, com 12 anos de idade na época, sonhava em ser adulta, tinha pressa de ser “mais velha”. Entre curiosa e um pouco triste (porque sabia que no futuro, assim como eu, ela provavelmente lamentaria tanta pressa naquela fase da vida), perguntei o que motivava tanta ansiedade e a resposta foi muito intrigante:

− Quando eu for grande eu vou comprar carro x, que é lindo e maravilhoso… – E começou a tagarelar sobre quão espetacular era o carro x.”

E minha curiosidade, esse bichinho voraz que carrego comigo, quis saber mais, então, continuei perguntando.

− Mas por que você quer dirigir?

− Porque é muito massa dirigir.

− E por que você quer dirigir justo o carro X?

− Porque ele é muito lindo, muito show… – E aí nossa conversa entrou num looping.

Resumo: Não havia qualquer motivo real além de uma fantasia para ela querer aquele carro. Sem parar para pensar a respeito, ela não percebia que dali a 6 anos, quando pudesse enfim dirigir, o carro x já não seria tão impressionante, nem mesmo havia garantia de que ainda seria fabricado, ou que teria condições financeiras de comprar o carro e tendo, de que ela ficaria feliz de verdade com a aquisição.

Ok, era uma pré-adolescente, natural fantasiar e não analisar as coisas profundamente, não? E embora discorde, alguns até dirão que nos dias de hoje para uma menina daquela idade é melhor fantasiar com um carro que com um marido e uma família de comercial de margarina…

…Mas a questão não é a filha da minha amiga e sua fantasia em si, quis falar sobre esse episódio da minha vida para introduzir uma reflexão que aquele momento me inspirou e volta e meia me serve de alerta nessa árdua caminhada rumo ao autoconhecimento.

Quantas vezes, já cruzei com adultos que justificam seus atos e escolhas da mesma forma que aquela garotinha? Quantas vezes eu mesma já agi como aquela garotinha, me deixando levar pelas nossas fantasias sem analisá-las adequadamente ou fazer qualquer tipo de reflexão sobre as razões que nos movem?

Quantos de nós, agimos como folhas ao vento, impulsionados por nossos desejos e emoções, muitas vezes, negativas, e não nos damos conta de que todo nosso intelecto, nossa energia vital, nosso esforço físico e emocional servem a uma vida instintiva, sem qualquer propósito a mais além da satisfação imediata dos nossos desejos?

Portanto, não é de se estranhar que estejamos sempre insatisfeitos, mesmo quando aparentemente não há motivos para insatisfação. Esse descontentamento crônico que muitos de nós costumam mascarar das mais variadas formas (sexo, drogas e rock’n’roll, são apenas algumas possibilidades) é resultado de um movimento interior que exige o discernimento dos nossos próprios sentimentos, atos e motivações. Nossa consciência, a conexão entre o espírito e a carne, sabe que nos distanciamos do propósito assumido ao encarnar no corpo físico e nos dá essa sensação de desajuste. Como é muito difícil avaliar a si mesmo e constatar espontaneamente que não somos aquilo que pretendemos ser, em vão, tentamos ignorar essa voz interior que nos alerta. Então investimos mais tempo e energia em busca de adquirir aquilo que consideramos sinal de sucesso: carros, dinheiro, comida, status, fama… Toda a aquisição material só nos preenche por pouco tempo e na sequencia já estamos querendo mais…

Não é por acaso que determinadas situações passam a se repetir no nosso cotidiano, trazendo sempre os mesmos resultados em um padrão de causa e efeito, muitas vezes sutil, que nos leva a reclamar da vida, da sorte, do azar etc. Não percebemos que não podemos obter resultado diferente agindo da mesma maneira. Como ratos de laboratório em um labirinto, repetimos a mesma experiência até acharmos a saída. Isto é, embora pareça que estamos indo em frente, na verdade, estamos andando em círculos. Não conseguimos seguir adiante antes que a lição seja aprendida. E normalmente, para se conseguir aprender a lição é preciso sair da superficialidade das aparências e mergulhar em nós mesmos, alterando nosso comportamento, independente das atitudes alheias.

E se você chegou até aqui deve estar pensando: “Ok, reconheço ter vivido até agora de maneira superficial, a insatisfação comigo mesmo e com os outros me incomoda, os relacionamentos que mantenho me dão mais desgosto que alegria, não desfruto realmente daquilo que possuo e minha atenção está sempre focada naquilo que não tenho, que me aborrece ou incomoda de alguma forma, mas o que fazer? Como sair desse looping?”

Antes de mais nada, parabéns por fazer uma autoanálise tão profunda. Poucos tem essa coragem. Muito poucos.

Mas sinto em desapontar você, não tenho uma solução mágica.

Baseada em tudo que já vivi e aprendi até hoje, eu poderia listar aqui uma espécie de “receita para o sucesso”, um “passo a passo infalível para ficar de bem com a vida”, mas a verdade é que na busca pelo autoconhecimento, cada um faz uma jornada única e não existe método infalível ou momento certo. O ponto de partida é a história pessoal que leva cada um de nós ao momento mágico em que decidimos pôr o pé na estrada e sair da zona de conforto. E o sucesso nessa caminhada está na determinação em permanecer em marcha porque ao longo do percurso a tentação de estacionar ou retroceder é constante.

O bacana é que para mudar nosso padrão de comportamento e reagir às situações do dia a dia com sabedoria, consciente dos próprios sentimentos e limitações só é necessário a determinação para conhecer melhor a si mesmo. Ter um guia, uma pessoa amiga que vai lhe orientar de ao longo da jornada é importante, mas não precisamos realizar peregrinação pelos caminhos de Santiago de Compostela, visitar as Pirâmides do Egito ou contemplar Machu Pi Chu. Não é necessário sentir nenhum tipo de experiência mística, basta olhar para dentro de si mesmo e compreender melhor quem realmente somos.

E não vou mentir, é preciso muita coragem para reconhecer a si mesmo como alguém que precisa evoluir. Mas só a sensação de liberdade que se obtém em diagnosticar em si mesmo essa necessidade já traz um alivio enorme. Afinal, há alegria maior do que constatar que capazes de nos livrar de tudo que nos faz mal, sem depender da vontade de mais ninguém?

Bia Kelly é terapêuta Lumni. Entre aqui para conhecê-la.

Bia Kelly

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