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Desmistificando o suicídio

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Na última semana – às vésperas do Setembro Amarelo – foi veiculada uma notícia que tem despertado a curiosidade mórbida e o sumário desprezo de muitas pessoas: um suposto suicídio associado a assassinato.

Infelizmente, quando a mídia aborda essa temática, o suicídio em si permanece fora dos holofotes, obscuro e misterioso; comumente, são feitas reportagens que dissecam a ação, criam nexos causais simplistas e até exibem fotos chocantes da tragédia. O ato de suicidar ganha, sob essas lentes, um aspecto glamouroso, romanesco, enigmático e superficial, servindo para angariação de visualizações e entretenimento público.

Isso é um desserviço porque romantiza o suicídio, oferece artifícios perigosos a espectadores acometidos por ideação suicida e alimenta a ignorância da população sobre o assunto.

Um erro muito comum incide em atribuir uma única causa à ação de suicidar – “ele se matou porque perdeu o emprego”, “ele se matou porque divorciou”, “suicidou porque tinha uma doença sem cura”. Embora acontecimentos pontuais possam contribuir para a passagem ao ato, a ideação suicida não é abrupta ou linear; na realidade, ela é uma série de pensamentos gravemente distorcidos sobre a realidade que traz profundo sofrimento a ponto de a pessoa se sentir desesperada e desamparada demais, de modo a ver na morte a única saída para o sofrimento. A pessoa que tenta se matar está acometida por uma cadeia de pensamentos viciados e por intenso sofrimento mental.

Pensamentos suicidas povoam a maioria das pessoas; a pessoa acometida pela ideação suicida não é uma raça à parte, um ser exótico e inacessível, mas alguém desesperado, que precisa de ajuda e que se sente sem saída alguma.

Para entender o suicídio – tanto a ideação quanto a passagem ao ato – é preciso desmistificá-lo.

Há pessoas que pensam no suicídio como uma decisão individual respaldada pelo livre arbítrio, e que o suicida deve ter sua vontade “respeitada”. Em outras palavras, o suicídio seria um exercício natural de liberdade individual, posto que somos livres para decidir o que fazemos com nossos corpos.

Embora aparentemente sensata e racional, essa ponderação contém uma série de problemas: se bem-sucedido o ato, não há como voltar atrás na decisão – não há como efetivamente atuarmos em auxílio de uma pessoa que dá cabo da própria vida; se ela conseguir consolidar a ação, já era, não há o que ser feito. A pessoa morta não está mais livre para decidir coisa alguma sobre si mesma.

Dessa forma, é melhor que possamos intervir no “livre arbítrio” do sujeito agora para que ele se mantenha vivo e, uma vez vivo, possa se ver livre para tomar outras decisões na sua vida e exercer de fato o livre arbítrio. Gente morta não tem livre arbítrio.

[Por mais que segmentos religiosos, espíritas e espiritualistas abordem a vida após a morte, a única certeza que é universal para a humanidade é a de que nossas principais ações estão aqui, na esfera da vida como a conhecemos, e não além. Mesmo que a vida após a morte fosse uma certeza, qual seria o sentido de estarmos aqui se não fosse para agirmos neste mundo?]

Ademais, uma característica do suicida é a ambivalência; ninguém nunca está plenamente certo de querer morrer. A pessoa adoecida, em específico, oscila fortemente entre viver e morrer de modo que, mesmo que planeje minuciosamente a própria morte, a decisão final é sempre impulsiva. Como se não bastassem esses argumentos, ainda se sabe que, notoriamente, pessoas que tentaram suicídio e sobreviveram a ele demonstraram arrependimento pela tentativa.

Além disso, a ideação suicida é uma doença mental que altera radicalmente a percepção da realidade, sendo baseada numa situação de desamparo e desesperança na qual a morte é vista como uma saída para o sofrimento. Uma vez tratada essa etapa, o desejo de morrer desaparece.¹

Sendo uma ação impulsiva que, bem-sucedida, culmina no fim da vida como a conhecemos, será que vale a pena priorizar o suposto livre arbítrio do sujeito nesse caso? Sendo o suicídio uma conseqüência de um padrão de pensamentos distorcidos da realidade, ele deve ser considerado uma decisão tomada espontaneamente?

[Acredito que não – o suicídio não é uma decisão espontânea a ser “respeitada” – e me apóio em uma sólida ref

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